Arquivo mensal: dezembro 2012

Contra a precarização do ensino e da formação dos cientistas sociais!

Carta Aberta à Pró-Reitoria de Graduação da UFMG

No dia 21 de novembro de 2012, o Colegiado do curso de Ciências Sociais foi informado  pela  Comissão  para  Implementação  do  Novo  Sistema  de  Informações Acadêmicas que o sistema acadêmico da UFMG sofreria uma modificação em 2013, e que o sistema de matrícula duplo  vínculo, existente nos cursos  de Ciências Sociais e Psicologia, não poderia mais existir, tendo os estudantes matriculados nessa modalidade que decidir entre a licenciatura ou o bacharelado. 

Os  72  estudantes  de  Ciências  Sociais  com  matrícula  duplo  vínculo  foram convocados a decidir entre uma das duas modalidades até o dia 26 de novembro. A Pró-Reitoria  de  Graduação  se  dispôs  a  prestar  esclarecimentos  sobre  essa  decisão  em reunião aberta com os estudantes de Ciências Sociais no dia 5 de dezembro.

No entanto, desde que o assunto veio à tona, os estudantes de Ciências Sociais se prontificaram em debater a questão coletivamente e apontar como essa decisão pode ser extremamente prejudicial para o curso de licenciatura.

O curso de licenciatura em Ciências Sociais é uma das licenciaturas da UFMG que  menos  tem  formado  profissionais,  segundo  dados  fornecidos  recentemente  pelo Colegiado  Especial  de  Licenciatura.  O  desprestígio  da  licenciatura  em  relação  ao bacharelado  é  um  fato  notável  e  que  certamente  não  encontra  justificativas  apenas externas ao curso.

No  entanto,  é  justamente  com  relação  às  questões  internas  ao  curso  de licenciatura  que  acreditamos  ter  maior  responsabilidade  e  poder  de  intervenção,  no sentido de tentar alterar esse quadro de desvalorização e desestímulo à docência.

Em 2009, um grupo de estudantes de Ciências Sociais da UFMG formaram o Coletivo SoL – Sociologia e Licenciatura MG, no sentido de valorizar a licenciatura e fortalecer o debate sobre o retorno da Sociologia para o currículo do Ensino Básico. O Coletivo realizou e participou de eventos, além de ter iniciado o projeto que culminou no  surgimento  do  PIBID  (Programa  Institucional  de  Bolsas  de  Iniciação  à  Docência, recente programa do Governo Federal de apoio às licenciaturas) Sociologia UFMG.

A  área  de  ensino  de  Sociologia  tem  ganhado  cada  vez  mais  notoriedade.Recentemente  foi  criada  a  Associação  Brasileira  de  Ensino  de  Ciências  Sociais (ABECS)  e  a  Sociedade  Brasileira  de  Sociologia  (SBS)  criou  um  congresso  voltado especificamente  para  o  ensino  de  Sociologia  no  Ensino  Básico.  Também  vemos  em nosso estado o surgimento de pós-graduações na área de ensino de Sociologia.

A área de ensino de Sociologia tem crescido, mas ainda há muito trabalho pela frente, e ele deve ser apoiado pelas universidades públicas. Segundo dados do Censo Escolar 2010, apenas 5% dos profissionais que estão lecionando Sociologia no Ensino Médio no Brasil possuem formação na área.

A recente decisão da referida Comissão com respeito ao sistema de matrículas pode  colocar  em  risco  toda  uma  luta  dos  estudantes  com  relação  à  valorização  da licenciatura e distanciar a UFMG de uma área acadêmica que está ganhando cada vez mais espaço. 

Isso porque sabemos que a escolha prioritária dos estudantes é o bacharelado, e não a licenciatura (somente um estudante do curso de Ciências Sociais está matriculado apenas  na  licenciatura).  A  obrigação  da  escolha  entre  uma  das  duas  modalidades certamente terá como resultado um esvaziamento ainda maior da licenciatura.

Além  disso,  essa  decisão  incentivará  aqueles  estudantes  que  escolham  se matricular  na  licenciatura  após  terminar  o  bacharelado  a  construírem  suas  trajetórias acadêmicas  reproduzindo  o  tão  criticado  modelo  3  +  1,  em  que  as  disciplinas pedagógicas são cursadas ao final da graduação, com um status de anexo das disciplinas específicas. 

A universidade pública jamais deve perder de vista que é também sua obrigação formar docentes para o  Ensino  Básico, e que deve oferecer cursos  de qualidade,  que sirvam de estímulo à docência. Essa tarefa se faz cada vez mais necessária diante desse cenário de baixa oferta de professores para assumirem os cargos no ensino público.

Diante  das  informações  aqui  apresentadas,  pedimos  que  a  Pró-Reitoria  de Graduação nos ajude no sentido de fazer os órgãos responsáveis a repensarem a decisão de alteração do sistema acadêmico com relação à extinção da possibilidade da matrícula duplo  vínculo  para  o  curso  de  Ciências  Sociais  da  UFMG.   

 Ainda pedimos que, de qualquer forma, os alunos sejam resguardados de modo que  não  sofram  nenhum  prejuízo  na  transição  para  o  novo  sistema  de  informações acadêmicas, tendo em vista disciplinas já cursadas e versões curriculares diversas. 

Certos de sua compreensão, assinam essa carta:

Articulação Nacional dos Estudantes de Ciências Sociais

Colegiado de Ciências Sociais

Centro Acadêmico de Ciências Sociais Vinícius Caldeira Brant da UFMG (CACS)

Coletivo SoL MG

PIBID Sociologia UFMG

ENADE

Nota de esclarecimento: sobre a ação do MEC em cancelar o processo seletivo 2013 do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia.

Nós, alunos do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia, viemos por meio desta, esclarecer a comunidade interna e externa, a nota publicada pelo Ministério da Educação (MEC) acerca da suspensão do vestibular do ano de 2013, referente ao rendimento do curso que se apresentou inferior ao valor mínimo exigido na avaliação de 2008 e 2011. Para examinar os cursos de graduação, o MEC faz uso do Conceito Preliminar de Curso (CPC) que avalia o rendimento dos discentes, docentes e infraestrutura, sendo um dos indicadores o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE). Neste instrumento é avaliado o conhecimento do ensino superior na sua especificidade, porém há uma incompatibilidade na avaliação, pois os instrumentos desta não corroboram com as condições reais e estruturais do ensino superior.
O indicador que avalia o corpo docente e a infraestrutura ocorre com a visita de um representante técnico do Ministério da Educação. Entre 2001 e 2005 o curso de Ciências Sociais passou por uma profunda reestruturação do Projeto Político Pedagógico, grade curricular, corpo docente e infraestrutura. Desde 2003 o MEC não envia tal representante para avaliar as condições atuais do curso, que em 2010 teve implantado o curso de pós-graduação, e em 2011 se tornou uma unidade acadêmica (INCIS).
Há a necessidade de avaliação dos cursos de graduação, porém o ENADE é um exame meritocrático e vertical que visa única e exclusivamente a estratificação e ranqueamento dos cursos dos Institutos de Ensino Superior (IES) que ao invés de avaliar de fato os cursos através de um critério pedagógico, acaba assumindo um caráter punitivo a aqueles que obtêm notas baixas. Sendo assim, nos perguntamos se o correto não seria entender o porquê de tais resultados ao invés de penalizar.
Acreditamos que o ENADE não contempla a diversidade do curso e não atende as demandas locais, pois faz uso de instrumentos precários, obsoletos e limitados. Mediante nossa insatisfação quanto à avaliação, os estudantes de Ciências Sociais traçaram estratégias para melhor conter e solucionar esse quadro, tais como: debates e assembleias que resultaram no boicote ao exame.
Dessa forma entendemos que, a ação do MEC em interditar o processo seletivo consistiu em uma atitude precipitada e insuficiente, uma vez que a visita de um representante do Ministério da Educação não foi feita, impossibilitando assim a real avaliação do curso de Ciências Sociais – UFU. Solicitamos então a presença do mesmo, para que possamos de uma maneira democrática debater e apresentar as nossas reivindicações.

Assinatura: Centro Acadêmico de Ciências Sociais,

Gestão: “Há quem sambe diferente”

Uberlândia
20 de dezembro de 2012

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